Salve
o TESÃO
O Espaço
Cultural TESÃO está para completar 10 anos de existência. É um projeto que
nasceu das pesquisas da Somaterapia e que, apesar da sua manutenção, vem
passando por diversas mudanças estruturais. No início de 2003, passamos por
dificuldades financeiras e lançamos a Campanha Salve o TESÃO. Foi
interessante, pois além de colaborar com o orçamento do projeto, aumentamos
nossos contatos com pessoas que apóiam nosso trabalho. Apesar da permanente
dificuldade financeira de projetos alternativos, o momento que passamos é
outro, e como tem sido nossa prática explicitar e tornar público nossas produções
e conflitos, escrevo este artigo. Em novembro de 2003 faríamos uma série de
eventos para marcar uma década de produção cultural, mas estamos adiando a
produção deste evento por conflitos que estão acontecendo e que envolvem o
atual espaço físico, na rua Caiubí nº 1082 no bairro Perdizes. Em decorrência
destes conflitos este mês (09/2003), recebemos uma notificação da proprietária
do imóvel pedindo que desocupemos o espaço. Este artigo é um desabafo ideológico
em que vou mostrar o que percebo da situação que nos encontramos, e terá uma
continuação em que irei descrever o que for acontecer de agora em diante.
PEQUENO HISTÓRICO
Em 1993
inauguramos em Perdizes o TESÃO, A Casa da Soma, um investimento da SOMATERAPIA
que teve como locatário Roberto Freire, o criador da técnica. Foram sete anos
em que ocupamos um imóvel na rua Dr. Cândido Espinheira nº 541. Os dez anos
de produções do projeto Tesão serão detalhadas em um CD-ROM que pretendemos
lançar no ano que vem. Entre as atividades mais importantes da Casa, podemos
destacar a implantação do primeiro grupo de capoeira angola da cidade de São
Paulo e a criação do Curso de Pedagogia Libertária. Esta primeira casa da
soma representou um investimento financeiro e pessoal muito grande, num momento
em que mudamos nossas estratégias de atuação, foi formada uma nova casa da
soma no Rio de Janeiro. Devido ao tamanho e necessidade dos espaços que utilizávamos
e os custos de manutenção, mudamos para uma casa menor. Foi o período da casa
da rua Faustolo nº 109, perto do SESC Pompéia. Adaptamos a capoeira angola, as
atividades da terapia e as atividades libertárias. Foi morando neste espaço
que eu, Rui Takeguma, me separei dos terapeutas do Rio de Janeiro. Em 2001
mudamos para este novo espaço, que já entrou no terceiro ano de contrato.
Apesar do pouco tempo nesta casa, comparando com a primeira, existem
afetividades que ligam nossa produção com a moradia e comunidade. Ocupando
este espaço, nasceu a minha primeira filha, a Cecília (que daqui a poucos dias
completará um ano de vida) e no ano passado se dá a minha separação científica
e política com o Roberto Freire, pois eu já estava separado dos outros
terapeutas mas tinha a supervisão de Freire, quem escreveu a carta de inauguração
deste espaço, além de participar de bate-papo comemorativo na Internet. Em
termos de acréscimo, nesta casa atual inauguramos a Biblioteca Roberto Freire,
idealizada antes mesmo dessa geração de terapeutas formados por Freire.
ATUALIDADES
Esse artigo
nasce numa tentativa de dialogar com a proprietária da casa que ocupamos, pois
caso ela mantenha sua posição atual iremos decidir na justiça o momento que
sairemos desta casa. A somaterapia que aprendi com Roberto Freire instigava uma
vida mais livre, pois é a ideologia anarquista a que mais se aproxima dos
conceitos biológicos de uma vida mais saudável. Agora, essa ideologia começa
no meu corpo e se estabelece nas minhas atitudes cotidianas (os micropoderes de
Michel Foucault). Com a experiência de há quase dez anos ser um profissional
de uma técnica que defende a transparência e sinceridade em suas atitudes,
nunca tive problemas em assumir nossos problemas estruturais / financeiros para
qualquer pessoa. Simplesmente aproveito meu desabafo para a proprietária para
fortalecer e explicitar meus conceitos ideológicos. O problema que estamos
tendo atualmente possui, como uma moeda, duas faces. Aparentemente uma face não
parece ter relação com outra, mas no fundo são um problema só. Uma face é a
questão financeira, é a mais aparente, ou a que dá mais marketing para os
fofoqueiros. A outra face é o que gera ou mantém o problema financeiro. Assim,
se existe uma dívida, existe um motivo para a existência dela. No caso de um
aluguel, como o que estabelecemos para criar e manter nosso projeto cultural, a
situação é simples: nós como locatários não estamos tendo condições de
manter o aluguel em dia. Assim a dívida torna justa a medida que foi e é de
nossa responsabilidade o pagamento pelo uso do imóvel. Para quem não conhece o
anarquismo, ou acredita de uma forma superficial, que a propriedade é um roubo
(como nos disse Pierre-Joseph Proudhon), poderia ficar num radicalismo simplório
e criticar a existência da propriedade e do capitalismo. Para a SOMAIÊ, ser
anarquista é ter estratégias de viver e MUDAR essa realidade que se apresenta.
Há muita confusão atual sobre conceitos anarquistas, pois o movimento está
impregnado de não-anarquistas que “defendem” o anarquismo de uma forma
contraditória, seja por terem visões niilistas, marxistas (hoje alguns se
dizem marxianos), ou por ainda viverem um anarquismo do século retrasado. Se
alugamos um espaço (e em região privilegiada) é que não temos uma
propriedade, e para fazer o que desejamos a estratégia foi alugar um espaço
para o projeto. Desejamos, entre outras coisas, acabar com o capitalismo e a
propriedade. Mas fazemos isso com estratégias e táticas que estamos
desenvolvendo. Interessante que na própria Somaterapia houve uma divisão
nesses últimos anos, da SOMA que praticávamos hoje existem a Soma do
Brancaleone (sobre a qual possuo várias críticas publicadas) e a SOMAIÊ, que
venho desenvolvendo em São Paulo e Minas Gerais. Assim a opção pelo aluguel
segue as regras legais dos contratos e, se estamos tendo dificuldade de
pagamento, cabe a nossa avaliação de continuar com a dívida ou não, sendo
que os limites da proprietária virão na legalidade da justiça. Um exemplo foi
a primeira casa da Soma, a da r. dr. Cândido Espinheira; depois de meses com
dificuldade para manter a casa, fizemos um acordo e saímos da casa para
diminuir o tamanho do projeto (a primeira casa era três vezes maior e mais cara
que as duas posteriores). Ainda sobre ter dívidas, não vejo problema algum
neste fato. Enquanto que o capitalismo cria uma visão de que não devemos nos
endividar, muito pelo contrário, devemos acumular, economizar, capitalizar,
etc; vejo que estar endividado é uma questão de possibilidade, ou melhor de crédito.
Adoro um quadrinho do Laerte, em que o personagem está “por baixo” pois está
com dívidas no banco, tem uma idéia e compra o banco, aí inverte a situação
e fica “por cima”, configurando um retrato do capitalismo: se você deve
pouco você é caloteiro, se deve muito você é um empreendedor. Brinco um
pouco com o assunto, pois honro todas as dívidas com as quais concordo e trazer
uma outra forma de ver a realidade é a conseqüência de me considerar
anarquista. Sem falar de que ter dívidas é uma conseqüência da globalização:
cada brasileiro que nasce já possui uma dívida pessoal de 1200 dólares, valor
da dívida externa dividida por toda a população. Os partidos de esquerda que
estão fora do poder sempre criticam as dívidas externas do Brasil e falam em
moratória; à medida em que chegam no poder (como o PT atualmente) mantêm a
relação com o FMI, até porque provavelmente não chegariam ao poder se não
tivessem mudado de atitude...
TESÃO versus
SUBMISSÃO
Se estivéssemos
com atraso no aluguel e recebêssemos um pedido de desocupação do imóvel, não
haveria problema, sairíamos do imóvel e ponto final (como já aconteceu neste
mesmo projeto). Lembrando as faces da moeda, se não temos condições de manter
a produção para gerar o pagamento e estamos usufruindo do que nos foi
oferecido (o imóvel), o limite de atraso é a paciência do proprietário e a
garantia, está no contrato, são os fiadores. O que diferencia esse momento é
o fato da proprietária nem desejar DIALOGAR, e como já falei, essa é a última
tentativa antes de irmos aos tribunais. Caso ela desejasse conversar, poderia não
só entender a nossa posição, mas principalmente, fazer a sua parte como
proprietária e nos cobrar por um IMÓVEL EM CONDIÇÕES de uso. A situação em
que nos encontramos é típica do capitalismo: exploração e lei do mais forte.
A questão libertária é não se submeter e poder usar o próprio capitalismo
como estratégia de sobrevivência; isto é, se existe um contrato, é que
existem DIREITOS E DEVERES. Se a proprietária quer RECEBER, isto é seu DIREITO
e meu DEVER. Agora, se ela está me alugando um imóvel, tenho o DIREITO de usar
o imóvel como me foi alugado inicialmente (no ato do contrato) e a proprietária
tem o DEVER de cumprir seu lado. Se meu dever está atrasado, o dever da
proprietária está omisso. Se o direito da proprietária está em falta, o meu
direito está ignorado. Contextualizando: alugamos um imóvel comercial para
continuarmos um Projeto de Espaço Cultural e Comunidade que já se desenvolvia
há oito anos. Temos três limites de divisa com vizinhos: do lado esquerdo há
uma casa abandonada, do lado direito uma residência e comércio, nos fundos uma
vila residencial e comercial. Após mais de um ano de contrato, no lado direito
da casa iniciaram uma demolição. Depois da demolição, continua a praga das
grandes cidades: construção de um edifício, que já passou de dez andares e
tem prazo de entrega para dezembro de 2004 (a obra não chegou nem na metade,
portanto). A obra vizinha vem dando prejuízos diretos e indiretos desde a
demolição, e logo depois de sermos atingidos (por poucos metros não atingiu
um morador) por um projétil que poderia ter matado um morador ou freqüentador
do espaço cultural, recebemos o pedido formal de saída do imóvel. Se já é
difícil a manutenção de espaço cultural que não recebe verba do governo,
nem de instituições abastadas, imaginem pagar o aluguel, ter de pagar por
incidentes que a proprietária deveria zelar, e ainda fazer o papel da proprietária
ao defender seu imóvel frente à obra vizinha. Assim temos uma opção
consciente de abater do aluguel mensal os gastos atuais derivados de conflitos
com a obra, que a obra nos devolveria só no término dos seus trabalhos. A
proprietária nem se interessou em verificar contabilidades pois mais da metade
da dívida que ela espera receber é a obra quem deve pagar. Mas o jogo
capitalista(*) é feiito para o mais fraco sempre perder, assim eu deveria (no
desejo da proprietária) pagar em dia o aluguel, e se isso acontecesse
provavelmente não nos pediria para sair do imóvel (pelo menos foi o argumento
de sua advogada / procuradora). Mas como a obra vizinha é uma realidade tão
perceptível quanto as atitudes capitalistas do dia a dia, estaríamos pagando
DUPLAMENTE o aluguel, pois os gastos e incômodos com esta obra são diários.
Estamos com uma dívida de uns 10 aluguéis. Este mês a obra me pagou 3 aluguéis
em consertos de equipamentos pessoais, caso a proprietária pagasse um advogado
para receber da obra, receberia uns 5 aluguéis imediatamente e poderíamos
negociar / parcelar os aluguéis restantes. Mas a preferência da proprietária
tem sido pagar uma advogada para receber de nós os 10 aluguéis, provavelmente
por ela estar vivendo uma realidade falsa: possui um imóvel que está sendo
prejudicado por uma construção vizinha e quer que o locatário cuide desse
problema e custos; isto é, ela tenta viver uma realidade em que sua propriedade
está intacta e em perfeitas condições de aluguel. Esse é o jogo, o que será
que um JUIZ dirá no tribunal? Numa sociedade libertária o DIÁLOGO evitaria
esse caminho. Ser anarquista para mim é essa tentativa de diálogo, uma
tentativa de viver uma ética cotidiana diferente da usada pelas pessoas que
mantêm (às vezes sem perceber) a essência do capitalismo: a exploração e
injustiça. O mesmo se processa em relação à obra vizinha, uma ética de
passar por cima do mais fraco. Devem, mas só pagam quando quiserem ou se
acionados na justiça. Poderiam ter matado alguém, mas em vez de tentar evitar
que isso aconteça novamente, simplesmente justificam: “estamos dentro das
normas (NR18)”. Atrapalham nosso projeto, mas não se importam... Adiamos as
comemorações dos 10 anos de TESÃO, para começar uma guerra de ação direta
contra a situação que nos encontramos. Por força da lei, provavelmente
teremos de entrar na justiça contra a proprietária, se conseguirmos, também
contra os construtores. Temos detalhes financeiros e registros fotográficos de
todos os incidentes que aconteceram nos últimos meses. Se a proprietária não
quer ver esse material, no mínimo teremos o que apresentar num tribunal.
Espero que a
partir dessa possamos conversar com a proprietária, para juntos receber de quem
vem prejudicando a ambos, pois só nós estamos, por enquanto, ‘segurando a
onda’. Sou a ponta mais fraca dessa tríplice, se a proprietária sair da
falsa realidade e encarar os fatos verá que tem de reagir, de alguma forma, à
obra, que é a ponta mais forte. A obra, pelo que percebi, só responderá a uma
força maior, a Justiça, para poder dialogar e acertar sua parte.
Não gosto
ideologicamente de polícia e poderes públicos, mas quando necessários e como
estratégias de vida social, eu como anarquista declarado uso desses recursos do
sistema. Das poucas vezes que tive de ir aos tribunais saí vitorioso, pois
sempre, independente das regras e leis, estava do lado da razão. Assim espero
que apesar da futura morosidade e burocracia, a Justiça chegue à justiça.
(*)
Como sou anarquista, critico a sociedade em que vivemos, a capitalista e
proponho uma nova forma de organização política. Mas nesse artigo o ponto que
destaco como ‘política capitalista’ que sou contra é a lei do mais forte.
Na maior parte dos casos quem ‘tem’ sempre tem mais facilidade pra ter mais
e que ‘não tem’ cada vez tem mais dificuldade para ter. Acho que deveria
ser o contrário. Veja os planos de afinidades: quanto mais eu consumo mais eu
ganho, quanto mais eu viajo, mais ganho viagens. Quem não consome porque
provavelmente não tem condições para isso, não ganha. E no outro lado das
aparentes tentativas de mudanças temos as formas paternalistas de atuação:
que também não modificam a estrutura do sistema, como o projeto Fome Zero do
atual governo.
Rui Takeguma produtor de Somaiê, fotógrafo,
professor de capoeira angola, anarquista e pai da Cecí. Setembro de 2003 Espaço
Cultural TESÃO – São Paulo / SP
Publicado no site http://cultura.tesao.vila.bol.com.br/caiubi.html
Mandado por correio para a proprietária e a procuradora, o texto e cópias em xerox:
- da nota fiscal do conserto de computador pago pela EBM - (a obra...),
- matéria de revista nacional de capoeira divulgando o nosso trabalho e evento da casa (http://f-a-c-a.vilabol.uol.com.br/cdfacasp.jpg) em:
http://f-a-c-a.vilabol.uol.com.br/facadeponta.html
e
- matéria de revista do bairro falando das atividades da casa:
http://biblioteca.rf.vilabol.uol.com.br/
Aguarde a segunda parte deste artigo