1ª Parte - MORTO
“A indignação é meu primeiro sentimento”. Esta frase de M. Bakunin explicita o que venho sentindo há algum tempo e agora resolvo explicitar de vez: minha relação com Roberto Freire e a Soma.
Se por um lado Roberto Freire continua vivo e atuando tanto na literatura quanto na psicologia, para mim ele morreu. Este ano eu completaria 14 anos de relação com Roberto Freire: um ano como cliente da Soma, dez anos trabalhando juntos dentro do Coletivo Brancaleone, um ano separado do Brancaleone mas sendo supervisionado e este último ano, separado e envolvido em fofocas, que agora resolvo explicitar. Em 2002 houve a morte lenta da relação, e agora resolvo cremar o assunto. Este manifesto marca a entrada do ano de 2003, sendo o último a entrar no CD-Rom/Livro “Iêêêeee!!!”, que pretendo publicar brevemente.
A frase que escolhi como título deste manifesto é uma adaptação da frase que Freire criou quando caiu o Muro de Berlin: Morto o socialismo autoritário, Viva o socialismo libertário. O que parecia um triste fim das lutas marxistas se mostrou um bom momento para lembrar o que o socialismo libertário (anarquismo) sempre denunciou: que a proposta marxista de socialismo de cima pra baixo não é possível, como Bakunin prenunciou no início da revolução russa.
Uso dessa maneira esta frase de impacto pra explicitar o fim triste da relação de amor e admiração que tive por Freire desde 1990. E explicitar, por outro lado, a admiração e amor que TENHO por Freire: a pessoa que foi e suas obras, a somaterapia e vários de seus livros. Roberto Freire e a Soma apresentaram uma forma de existência que mudou radicalmente minha vida, emocional, profissional e politicamente. Sei que aprendi mais na convivência que na terapia ou literatura, mas até há pouco tempo, isto tudo era uma coisa só. Quando conheci Freire, havia uma unidade entre seu comportamento e suas teorias, hoje percebo que houve uma quebra, as teorias se mantêm mas a prática mudou. Prefiro denunciar esse estado de coisas agora para que Freire possa receber estas críticas.
O ano de 2002 foi muito forte na minha vida. Da gravidez do meu amor e por amor à minha produção resolvi nomear de Soma-iê o trabalho que desenvolvo. No início de agosto de 2002 escrevi uma carta que entitulei Carta pra Ceci – uma batalha pela soma que acredito. Foi uma carta direcionada ao Freire e à minha filha que estava prestes a nascer. Na carta falo da morte da minha relação pessoal com Freire e explico os motivos para ele e para minha filha. Ao entregar a Carta pro Freire em sua casa, lhe dei também uma garrafa de absinto para ele brindar o fim da relação, uma forma de buscar uma secessão anarquista, sem ressentimentos. Foi a última vez que vi Freire pessoalmente.
Essa “morte” aconteceu num ambiente de fofocas a meu respeito e minha produção; como Freire se negou sistematicamente a me receber e esclarecê-las, e em respeito à sua saúde, optei por oficializar para ele o fim de nossa relação. Como as difamações aumentaram e Freire continua não disposto a limpá-las, opto por trazer a público os detalhes desta relação.
Em outubro, quando minha filha completou 12 dias, recebi um e-mail assinado por Freire e outros três somaterapeutas. Achei o conteúdo tão baixo que procurei me comunicar com Freire, ao que ele disse, por telefone, não saber da existência do e-mail e que iria procurar esclarecer o assunto com o somaterapeuta João da Mata, um dos autores do email. Informei a Freire que, de qualquer forma, responderia ao e-mail publicamente, numa página da internet. A não comunicação posterior de Freire me confirmou que, apesar de não saber do e-mail, concordou com seu conteúdo ou já concordava quando da sua emissão, pois na época que pertenci ao Brancaleone, não tínhamos a prática de assinar pelos outros sem seu conhecimento.
Se em 2002 foi difícil lidar com estes conflitos, 2003 começou pior ainda: recebi por correio um convite, em carta registrada, para o lançamento da autobiografia de Freire, EU É UM OUTRO. Divulguei o lançamento e estava ansioso para ir e ver Freire pessoalmente, pois se morreu nossa relação pessoal, tinha a esperança de ter novamente contato com o escritor. Além disso, estava curioso para saber se e como, eu era citado no livro. Quatro dias antes do lançamento recebi uma comunicação indireta vinda da pessoa que mora com Freire, o “Buí”, me dizendo pra não aparecer no lançamento, senão me expulsaria com os seguranças da loja. Procurei esclarecer as fofocas ligando para o Buí. Depois de desligar algumas vezes o telefone na minha cara, finalmente consegui comunicá-lo que ameaças não me intimidariam e que eu só não iria ao lançamento se o próprio Freire não quisesse minha presença. Quando um cliente meu e de Freire fez o favor de verificar a história diretamente, soube que Freire achava melhor eu não ir. Não fui, mas pedi pr’uma amiga comprar o livro e pedir um autógrafo. Este foi meu último ato de interesse por Freire, em 11 de fevereiro de 2003.
Hoje existem alguns Freires, não os “outros” que ele cita poeticamente no título e no corpo de sua autobiografia, mas “outros” que estão matando o seu eu original: um que não quer me receber e esclarecer fofocas, outro que escreve em seu recente livro “Rui Takeguma afastou-se recentemente de nossa equipe de somaterapeutas e executa um trabalho de Soma independente do nosso e sobre o qual não tenho nenhuma informação”, sem falar de um Freire que diz ter se afastado de mim por motivos financeiros. Sem falar na onda de difamações praticadas por estas pessoas: João da Mata, Jorge (no livro George) Goia, Vera Schroeder, Alcides (Buí) e Paulo Freire.
Sobre as fofocas, elas só acontecem se existirem duas pontas: quem pratica e quem recebe. Estes que praticam mostram sua personalidade, os que recebem e não buscam esclarecer se mostram tão medíocres quanto. Assim, as pessoas que fizeram Soma nestes últimos anos e me conheceram dentro do Brancaleone, quando ficam sabendo dessas histórias atuais, mostram atitudes variadas: os que aprenderam algo conosco e exercitam sua crítica individual procuraram os dois lados do conflito e tiraram seu partido, outros ao ouvir as fofocas cortaram as relações comigo sem esclarecê-las. Estes mostram que a admiração por Roberto Freire não se dava pela proposta do anarquismo, e sim por uma idealização mítica de personalidade, que nós libertários combatemos; outros ainda devem optar por um democratismo da maioria, como eu estou só e o Brancaleone é composto por três, dão razão a eles...Tentando ver como a personagem Pollyanna do livro homônimo, que sempre via um lado bom nas desgraças, acho que esta crise está servindo para que os fofoqueiros e os que endeusam Roberto Freire se distanciem de mim. Para aqueles com espírito crítico, continuamos nossas relações, independente das relações que tenham com aquelas pessoas.
O Freire que não quer me ver, receber ou dialogar é um Freire morto que contradiz toda sua obra científica. A Soma que aprendi e creio não mais existir a não ser na vertente Soma-iê que venho desenvolvendo, sempre pregou uma comunicação limpa e clara. Somos influenciados pela antipsiquiatria que defende a sinceridade. Lutamos pela clareza na comunicação humana, e a sinceridade é preferível aos jogos e pactos de silêncio, por mais difícil ou dolorida que seja. Se Freire na sua sinceridade não quer se comunicar diretamente, quaisquer que sejam os motivos (esperei ainda alguns meses, imaginando ser problema de saúde), isso mostra que optou pelas fofocas mantidas pelos ditos anarquistas do atual Brancaleone.
O Freire que escreve em seu livro que não tem nenhuma informação sobre meu trabalho está morto, pois mente, ou por estratégia ou por delírio. O livro foi lançado em fevereiro de 2003 e independente da data da última revisão mandada para a editora, há uma confusão de datas no seu interior: Freire terminou o relato em 11 de setembro de 2001. A essa época Freire trabalhava de forma independente e dava supervisão a mim e ao grupo de somaterapeutas do Rio de Janeiro, o Brancaleone. Em setembro de 2001, quando inaugurei o Espaço Cultural TESÃO, Freire fez uma carta convite para as pessoas conhecerem o espaço, inclusive participando de um “chat” na internet, acontecido no TESÃO. Assim, Freire fala de minha separação da Soma ‘deles’ (Freire e o Brancaleone), o que ocorreu no início de 2002. Em fevereiro daquele ano, mandei textos para Freire: o manifesto da criação da Soma-iê e o artigo “Capoeira Qual é a sua, Angola, Regional ou Contemporânea”, onde faço várias críticas indiretas à visão de capoeira praticada pelo Brancaleone e descritas no livro de João da Mata. Sintetizando, Freire sempre esteve a par de minhas produções até na época do fechamento de seu livro; dessa forma ele seria mais ético ou sincero se publicasse que NÃO QUER TER informações do meu trabalho.
O Freire que ouço falar de fofocas veio aos poucos. Desde 2001 recebo fofocas do Brancaleone que tentei limpar seguidas vezes. O buraco se mostrou mais embaixo e o que parecia comunicação truncada se mostrou uma ética de jogos e mentiras. Desde 2001 desisti de acreditar nos somaterapeutas do Brancaleone. Todos os meus conflitos ficaram explicitados em adendos ao manifesto do ano passado. Por acreditar em Freire e procurar lhe poupar de nossos conflitos por sua saúde debilitada (câncer e esclerose), só explodi em outubro de 2002, como já comentei. As fofocas do Buí surgiram repentinamente agora em fevereiro de 2003. Até há pouco tempo atrás visitávamos seu espaço de capoeira, e quando veio a participar da roda dentro do 3º Encontro da FACA (http://f-a-c-a.vila.bol.com.br/3sampa), em agosto de 2002, no nosso espaço, declarou publicamente que não tinha problemas comigo. Mas o que me fez decidir a colocar TUDO de vez na internet e explicitar todos os detalhes dessa ladainha soma x soma-iê, ou Freire e brancaleone x Rui Takeguma foi um e-mail de Paulo Freire, músico e filho de Freire. Como até sua família me cobra assuntos de nosso trabalho científico e político, acho melhor me manifestar agora de forma completa. Este Freire que fofoca e manipula para mim está Morto.
Pra não ficar mais chato e minucioso que já está, colocarei o e-mail de Paulo Freire e todos os detalhes das fofocas financeiras num site da internet (link aqui), que vou colocar no ar no dia 1º de abril de 2003. Um presente para este dia da mentira marcar a entrada de algumas sinceridades. Neste site vou disponibilizar em detalhes os textos, trocas de e-mails, as páginas do Brancaleone neste período de 2001 a 2002 e meus pagamentos financeiros ao Freire digitalizados, pois, nas fofocas que praticam, usam uma questão financeira para tentar me invalidar eticamente. À época do fechamento da antiga Casa da Soma contraímos uma dívida seguindo princípios anarquistas de confiança, sinceridade e comunicação com Roberto Freire e Denise Wal, ainda não completamente paga, para os dois. Pra não ficar só respondendo às fofocas do Brancaleone, desmistificarei as relações financeiras e irei discutir nossas diferenças no campo da pesquisa; a que o Roberto Freire e “sua” Soma pratica está detalhada no livro recente A LIBERDADE DO CORPO, de João da Mata. Separados há pouco tempo, explicitamos à época divergências que antes entendíamos ser pequenas, mas grandes o suficiente para inviabilizar a convivência. Hoje considero que buscamos, na prática, caminhos opostos. No site aprofundarei a pesquisa soma-iê na capoeira e nossa opção em viver a pedagogia libertária através da nossa produção pessoal.
No cerne desta discussão vejo formas políticas de se
viver o anarquismo. E o anarquismo é como a vida, não existe UMA verdade, e
sim a verdade de cada um e esta muda muito no decorrer da vida. Aqui exponho a
MINHA verdade, e o tenho feito usando a internet. Este veículo contemporâneo
está criando novos paradigmas de troca de informações; tomando os
“bloggs” como exemplo, onde as pessoas abrem seus diários (algo tão íntimo
antigamente), eu também uso a internet como uma forma de explicitar o poder de
quem tem influências, mesmo dentro do meio 'alternativo' ou 'marginal'.
Repito o que tenho falado nos últimos meses: desafio Freire e Brancaleone a debater idéias e limpar estas diferenças de visão, num debate público com moderadores isentos. É lamentável que uma obra importantíssima que Freire nos deixou, a Soma que está descrita nos livros A ALMA É O CORPO e A ARMA É O CORPO, esteja se perdendo nas mãos superficiais de Brancaleone. Infelizmente vejo que Freire, na sua morte, aplica o que sempre combateu: o uso da fofoca contra a Soma, no caso contra a Soma-iê.
2ª Parte – VIVA
Roberto Freire tem uma importância cultural e política gigantesca, mas como todo contestador, não é reconhecido á seu tempo, ou enquanto vivo. Por isso digo e repito, Freire estará vivo enquanto sua obra tiver uma validade. Admiro Freire por sua literatura, especialmente os livros COIOTE e OS CÚMPLICES I e II. Mas sua maior obra, a meu ver, foi o desenvolvimento da Soma, conjunção de seus conflitos e história pessoal, gerando uma mistura de ciência com arte. Pela Soma houve o cruzamento de ciências marginais e revolucionárias com a arte popular da capoeira angola, que gerou uma pesquisa extremamente original. Freire, justificado em suas deficiências físicas, se manteve à parte da implantação da capoeira angola na somaterapia, que produzimos num grupo de extrema radicalidade e unidade, o Brancaleone de 1991 até 1997. Foram anos ricos em experiências e trocas. Só que dentro dessa unidade, fundamental inclusive para combater outros somaterapeutas que se afastaram e desistiram de pesquisar a capoeira angola, nasceu uma diferença na pesquisa da capoeira angola e sua relação com a soma. Assim a Soma superara a crise de implantação da capoeira angola, e tinha formado até 2000, quatro somaterapeutas, Eu, e os três do Brancaleone: João, Jorge e Vera. Pois nos formamos na década de 90 e fechamos a base da pesquisa da capoeira angola. Se há dois anos atrás Freire me declarava Somaterapeuta formado, hoje seu filho me questiona ser Somaterapeuta e falar de seu pai.
Em 2000 essas diferenças se somaram a várias outras de produção e na forma de viver a soma. O que poderia ser um ambiente rico de diversidades e possibilitaria um grande passo para a somaterapia, terminou com minha saída e de Freire do coletivo Brancaleone. Se dentro do mesmo coletivo fomos incompetentes em trabalhar essas diferenças, quando separados a situação agravou-se. Em 2002 fui sincero com o Brancaleone, pois minha sinceridade, na minha cabeça, poderia fazê-los rever seus erros e abriria espaço para que eu pudesse receber críticas gerando um apoio mútuo mesmo em separados. Mas agora vejo que minha sinceridade foi um erro: enquanto tive a estratégia de sair do Brancaleone para continuar sendo somaterapeuta, o coletivo adotou a estratégia de que, saindo do coletivo, eu sairia da soma; ao invés de me verem como um ex-companheiro em vôo solo me viram como um concorrente que precisava ser eliminado, típica competição capitalista de mercado. Repito que vou destrinchar essa minha visão subjetiva no site, trazendo exemplos objetivos, para cada um criticar á sua maneira.
Assim, apesar dessa crise de fofocas, a Soma desenvolvida por Freire e descrita em seus dois citados livros é genial e está viva e pulsante, só que mudou de nome, chama-se agora SOMA-IÊ. Acredito que quando produzirmos a atualização científica dos conceitos da Soma, ficará claro que a junção original de Freire, resgatando o lado político de Reich, junto com a Antipsiquiatria, Gestalterapia e Anarquia, formam idéias que estão presentes nas pesquisas de ponta da atualidade. A pesquisa científica da Soma está descrita, num linguajar acessível, em três livros fundamentais: UTOPIA E PAIXÃO, SEM TESÃO NÃO HÁ SOLUÇÃO e AME E DÊ VEXAME.
Freire fez, em sua obra, uma revisão dos conceitos afetivos mostrando a política por trás do amor. Segundo Jaime Cubero, um dos grandes conhecedores do anarquismo de seu tempo, Freire tem uma contribuição das mais avançadas na área libertária a respeito do afeto. Um exemplo da contemporaneidade das pesquisas de Freire pode ser visto dentro da biologia, em que vem nascendo uma área denominada “biologia da cognição” (onde destacam-se autores como Maturana e Varela) na qual neurocientistas investigam a importância do amor e da emoção. Pretendo atualizar essas pesquisas da soma em um futuro livro, a ser publicado em 2004 onde explicitarei a pesquisa Soma-iê.
Roberto Freire está vivo, e para que ele seja lembrado e homenageado, inaugurei em fevereiro de 2003 a BIBLIOTECA ROBERTO FREIRE. Na minha separação do coletivo, como fui o único a manter o projeto da biblioteca, herdei os livros que Freire acumulou nos últimos anos de pesquisa da soma. Agora inaugurada, 12 anos depois de ser idealizada e depois de inúmeras tentativas frustradas de organizá-la, vem recebendo apoio do comércio local da Zona Oeste de SP. Trabalho para que ela cresça e para que, nos próximos meses, possa se manter economicamente.
Roberto Freire está vivo, pois suas idéias em pedagogia libertária continuam atuais e gerando frutos.
Roberto Freire está vivo, pois se fui um “querido outro do meu Eu”, como disse o próprio Freire em sua autobiografia, ele ainda é o mais querido dos meus outros Eu, agora junto de Cleiri e Cecí.
Concluo esta parte do manifesto esclarecendo que não vejo incoerência em Freire estar vivo e morto. Há muitos anos atrás Freire me confidenciou que tinha medo de, na sua velhice, terminar como sua mãe, esclerosada e saindo da realidade; uma dessas experiências é relatada na autobiografia citada. No ano passado, quando Freire me informou que teve a esclerose diagnosticada pelo seu médico, lembrei da história de sua mãe; quando me disse do seu câncer, isso me remeteu de imediato às teorias reichianas que associam câncer à desistência. Reich afirmou que o câncer de Freud se deu pela desistência deste em pesquisar revolucionariamente e optar pela aceitação social da psicanálise. A história muda mas se repete, hoje a opção deste Freire morto é a aceitação acadêmica da Soma. A Soma-iê se orgulha de estar em caminho oposto: a radicalidade pela pedagogia libertária. Relutei alguns meses em perceber como as atitudes de Freire apoiando a mediocridade do brancaleone já eram atos esclerosados. A partir do lançamento de sua autobiografia e dos incidentes que a cercaram resolvi denunciar a morte de Freire.
Concluo que, devido à esclerose, Freire morreu. E para este Freire esclerosado não ficar na história, opto por denunciar a mediocridade que o cerca, pois ele é o único doente. Seus companheiros atuais me parecem ter atitudes reacionárias que os movem a fofocar e invalidar o Freire que existiu. E este Freire que conheci e convivi de 1990 a 2001 que quero preservar vivo. Se Morta a Soma, Viva a Soma-iê.
3ª Parte – SOMA-IÊ (13 anos em 1)
Se ano passado acrescentei o sufixo “-iê”, ao nome da minha prática científica, luto hoje contra o criador da própria soma, para defender o que acredito. A Soma criada pelo Freire revolucionário hoje é praticada por um coletivo medíocre que se acomodou na pesquisa e investe hoje no academicismo apoiado pelo Freire esclerosado, que já não possui grupos de terapia há muitos anos, e não possui mais a competência para corrigir os desvios de seus supervisionados.
Percebo que depois de fazer minha terapia somática, primeiro como cliente, depois como assistente e terapeuta, a terapia é um processo permanente de criação de estratégias para ampliar os libertarismos no cotidiano. Desde então venho desenvolvendo o que chamo de Soma-iê; só a técnica mudou de nome por questões políticas destes conflitos com Freire. Assim, afirmo que a Soma-iê possui doze anos de existência, oito de raízes e quatro de asas. Curioso é que, em 1990, quando Freire estava em conflito com os outros terapeutas, e eu era um recém-chegado na formação, ele me perguntou minha opinião sobre a mudança do nome da técnica para “Soma de Angola”. Afirmei que, por ele ter criado a Soma, os outros terapeutas é que deveriam mudar de nome.
Treze anos depois, mudo de nome (consulte o manifesto de 2002), e depois de um ano de muita produção, parecem que foram 13 anos de batalhas. Assim relembrando:
- relançamento do Jornal Tesão – produção em pedagogia libertária no jornalismo, que este ano amplia sua independência editorial. Em 2002 voltou com numeração zerada, teve oito números no decorrer de 1993 a 1998.
- Manutenção do Espaço Cultural TESÃO – enquanto outros espaços libertários abrem e fecham, o TESÃO completará em 2003 dez anos de atividades contínuas, sendo inclusive o único Espaço dedicado a Somaterapia no Brasil. De 1993 a 2000 na r. Dr. Cândido Espinheira, 2000 / 2001 na r. Faustolo e 2001 / 2003 na r. Caiubi.
- Lançamento da Campanha SALVE O TESÃO, que busca através de um serviço de venda de livros e revistas, a ajuda da manutenção do espaço físico (aluguel). Estaremos ampliando a Campanha para manter o espaço cultural num projeto de uma LIVRARIA VIRTUAL, com os últimos lançamentos do movimento anarquista e temas afins.
- Relançamento do PRÊMIO WALTER FIRMO DE FOTOGRAFIA, aplicação da pedagogia libertária na arte fotográfica – em março de 2003 se encerram as inscrições do quarto certame. Os 3 primeiros aconteceram de 1996 a 1998.
- Formação da Federação Anarquista de Capoeira Angola – FACA, um desenvolvimento natural da pesquisa da capoeira angola em pedagogia libertária, que em novembro de 2002 gravou seu primeiro CD, o Faca de Ponta. Neste 2º ano pretendemos iniciar um grande arquivo aberto de pesquisa multimídia de capoeira angola, socializando informações no universo da capoeira.
- Inauguração da BIBLIOTECA Roberto Freire, cujo acervo pode ser consultado através da internet. Estamos buscando patrocinadores locais e futuramente, de qualquer região, para ajudar a manter este espaço cultural libertário.
- Para este ano, abertura de novos grupos de somaterapia nos estados de São Paulo, Minas Gerais e Paraná, com possíveis investimentos em outras capitais. Pretendo iniciar a formação de novos somaterapeutas com essa radicalidade política e científica.
- Para MARÇO de 2003 pretendo finalizar o CD-Rom/Livro “Iêêêeee!!! – Capoeira Angola e outros anarquismos”, onde mostro a pesquisa de base da soma na capoeira angola, que serve de preparação para o livro com minha pesquisa, previsto para 2004.
Apesar dos pesares, a vida continua...
e quem viver verá...
Rui Takeguma,
Carnaval de 2003, Espaço Cultural Tesão SP - publicado na WEB em 15/02/2003
Dúvidas, críticas, escreva para somaterapia@uol.com.br
Obs. Este manifesto nasceu inspirado nas frases que finalizam o filme “Malcom X”, nelas Martin Luther King e Malcom X , dizem que não devemos usar a violência; mas se atacados violentamente não nos defendermos, seremos burros.
Obs2. Outro título possível para este manifesto: Morta a Soma, Viva a Soma-iê
Obs3. Se alguém me achou 'duro' com o Roberto Freire, leia o texto Uni-vos contra os velhos no poder!, do livro Tesudo de todo o mundo, Uni-vos! de 1995, onde ele mesmo se critica e denuncia a velhice política, que não tem a ver com a idade física, mas na maior parte das vezes são coincidentes. Freire sempre foi, a meu ver, mais jovem que eu, e agora me parece que ele adoeceu, como falo neste manifesto, ou simplesmente envelheceu, como ele fala em seu livro.
