SOM@ - IÊ – um Manifesto Anárquico Somático Angoleiro  

VEJA OBSERVAÇÃO *3 e *4  - NO FINAL DO TEXTO

Raízes

Há mais de dez anos atrás, quando caiu o muro de Berlim criou-se o ‘consenso fabricado’ do ‘fim da história’. Isto é o morto o socialismo, o capitalismo se tornaria hegemônico e com a informática apoiando as movimentações financeiras em alta velocidade se consolida a globalização econômica. A ‘terceira onda’ mantendo o autoritarismo e a exploração do homem sobre o homem. O anarquismo, como sempre, veio à tona no cenário de ponta das mudanças sociais da humanidade. A primeira explosão recente foi a partir de 1994 no México, destruindo o conceito de ‘fim da história’ veio uma luta considerada extinta: a luta de guerrilha, de rifles e corpo a corpo na selva. O Zapatismo, uma forma de anarquismo extremamente atual, conquista a autonomia do sul do México.

A globalização esbarrou nos movimentos libertários, que vieram num crescente. Em 1999 explode o protesto de Seattle, anarquia aparece na mídia mundial, e a cada encontro da Organização Mundial do Comércio (OMC), protestos em cada vez mais cidades. Ainda em 99, no Brasil, os Zapatistas fazem seu 2º Encontro Americano pela Humanidade e contra o Neoliberalismo, reunindo quase 3000 pessoas sonhando com outro mundo. Ano passado, acontecem dois eventos que simbolizam os assassinatos explícitos contra a humanidade: Carlo Giuliani na Itália e o WTC nos EUA.

O crescimento dos movimentos anti-globalização estava ameaçando a velha ‘nova ordem mundial’, as repressões policiais intensificaram-se e nas manifestações em Gênova, o poder de estado vem a tona assassinando a tiros o jovem manifestante Carlo Giuliano, em frente a fotógrafos do mundo inteiro. Os assassinatos policiais são freqüentes, agora dessa forma explícita, há a intenção política de intimidar os outros e futuros revolucionários.

O terrorismo contra as torres gêmeas de NY transmitido ao vivo pela TV, e em vários ângulos mostra o outro lado do poder, a globalização do fundamentalismo religioso vem menos aparente, porém complementar ao do terrorismo capitalista. Isto é, a emoção sentida por mim e pelas pessoas que viram ao vivo o desabar das torres enterrando milhares de pessoas, é a mesma emoção que não vem à tona cotidianamente com os assassinatos decorrentes da política econômica globalizada: fome, miséria, escravidão, etc.

O terrorismo é a prática do capitalismo, seja americano ou muçulmano. Tanto que quem mais se beneficiou dos atentados foi o próprio capitalismo, produzindo mais uma guerra, necessária para renovar a economia da indústria bélica. Fortalecendo o controle do estado sobre os indivíduos, seja pela espionagem tecnológica ou manipulação das massas pela mídia (lembra das falsas notícias sobre a reação dos palestinos divulgada pela CNN ? ), seja na tentativa de igualar os terroristas com os rebeldes da anti-globalização.

O movimento libertário está muito mais vigiado pós-atentado, mas o que faz ou fará o movimento cair num refluxo é o autoritarismo disfarçado de libertarismo. Em 2000, no Encontro Internacional de Cultura Libertária de Florianópolis, veio a tona um autoritarismo dentro do movimento, que não é denunciado como poderíamos. Seja através de ex-marxistas inconformados, ou novos sonhadores que possuem um autoritarismo no seu corpo e comportamento que são contraditórios, ás vezes disfarçados de punks, ecologistas, vegetarianos (vegan), assexuados ou o que for.

Asas

Depois que fiz Soma, em 1991 entrei na formação com Roberto Freire, o criador da Soma. Montamos o Coletivo Anarquista Brancaleone, e nosso primeiro manifesto chamou-se Morto o Socialismo Autoritário - Viva o Socialismo Libertário.

Depois de nove anos de cumplicidade do Brancaleone, em dezembro de 2000, saí do coletivo (na mesma reunião, Roberto Freire por motivos de saúde também se afasta do Brancaleone). Em 2001:

-         Coordenei a Soma em Curitiba e Belo Horizonte (Campinas e Natal, aconteceram trabalhos sem continuidade, e em Sampa só demonstrações);

-         Em São Paulo, única cidade onde trabalhamos as ‘duas Somas’(Soma e Soma-Iê), implantei o Espaço Cultural TESÃO – Soma-Iê, Capoeira Angola e Anarquia, com aulas de capoeira angola e eventos libertários;

-         Após alguns meses sem alunos e espaço, retornamos as aulas e rodas do Iê - Grupo Anarquista  de Capoeira Angola, retomando a pesquisa e desenvolvimento do IÊ;

-         Fortaleço a HP da Soma: http://soma.pagina.de , mais informações virtuais, desde materiais de arquivo, bate-papo com Roberto Freire, vendas de livros: a Internet começa a ampliar de forma real os contatos;

-         O Curso de Pedagogia Libertária cresce, pois Brancaleone continua com o curso no Rio de Janeiro. E Rui Takeguma desenvolve as Oficinas de Criatividade Libertária. Em São Paulo e Belo Horizonte, aconteceram as Oficinas, que já produziram seus primeiros frutos: em BH, show músical e o jornal “Anormal”, em SP a pré-produção do Jornal TESÃO Prazer & Anarquia, que deve voltar em 2002;

-         Formação do TESÃOEDITORI@L: estou me associando a novos companheiros aumentando a produção editorial da Soma.

 E o Vôo...

A SOMA descrita nos livros de Roberto Freire somente indica o início da pesquisa com a capoeira angola. E depois de sete anos pesquisando e aprendendo juntos, em 1997 começamos a encaminhar formas diferentes de ver e sentir a capoeira angola. Os conflitos pessoais, que levaram a me separar do Brancaleone, explicitaram a separação científica que havia entre nós. Em 2001, além de João da Mata publicar um livro sobre sua visão da capoeira e soma, linha de pesquisa seguida dentro do Brancaleone, Roberto Freire voltou ao Coletivo Brancaleone (informação no  Site do Brancaleone VEJA OBSERVAÇÃO *1 - NO FINAL DO TEXTO), assim em dezembro de 2001, me separo cientificamente de Freire. 

Sinto que desenvolvi minhas raízes e asas para meu vôo. Não quero provocar descontentamentos, nem viver os desgastes de confusões sobre as divisões da Soma, quando entrei na formação participei da luta que foi a retomada de Freire por uma Soma como ele acreditava: com a capoeira. Acredito e confio em Roberto Freire, João da Mata, Jorge Goia e Vera Schroeder; recomendo a Soma que eles produzem, mas também percebo uma nova forma de expressar minha Soma e nesta virada de ano, acrescento um sufixo ao nomear o que produzo e acredito.

...SOMA – IÊ!!

            Para continuar sendo brancaleônico, e produzir uma terapia mais eficaz, verifiquei que quero ter a mesma relação de entrega na Capoeira Angola como possuo com o Anarquismo, isto é, visceral. Este ano pretendo publicar um livro mostrando de forma mais aprofundada os resultados que a capoeira angola produz no ser humano. Para isso é preciso definir precisamente o que é a Angola dentro das capoeiras existentes, paralelamente ao lançamento deste Manifesto, lanço um texto sobre as capoeiras que vai adiantar um pouco minha visão da Angola e mostrar minhas discordâncias com a Soma de Roberto Freire praticada pelo Brancaleone. VEJA OBSERVAÇÃO *2 - NO FINAL DO TEXTO

Adoto SOMA – IÊ, pois é a mesma Soma que consta nos livros de Roberto Freire, “A Alma é o Corpo” e “A Arma é o Corpo”. Acrescento a palavra IÊ, pois ela é usada para iniciar e terminar uma roda de capoeira, mas principalmente por que desde 1993, com a implantação do primeiro grupo de Capoeira Angola em São Paulo pela Soma, e depois em 1995, com a radicalização na Autogestão, criamos o Coletivo Iê de Capoeira Angola Libertária.

O primeiro passo da SOMA – IÊ, este ano, está sendo a criação de um coletivo nacional que amplie a importância do IÊ dentro do universo da capoeiragem, mas principalmente fortaleça o desenvolvimento da proposta libertária dentro dos coletivos. Outras mudanças, que fortalecem essa proposta, são o TESÃOEDITORI@L e as Oficinas de Criatividade Libertária.

Se a globalização se fortalece com assassinatos e terrorismos (até a China entrou recentemente para a OMC), podemos ampliar as estratégias libertárias, aprendendo com a arte dos negros que disfarçaram sua luta em dança, para neste momento de refluxo libertário, talvez inverter o ‘trem da história’: de desumanidade para humanidade. Torna-se complexa a luta libertária à medida que temos de combater em várias frentes: seja contra o poder capitalista, seja contra companheiros que se desvirtuam e entram no jogo do poder, tentando buscar alternativas partidárias ou indiretas; ou ainda libertárias, só que de forma autoritária. Este mês em Porto Alegre acontece o 2ª Fórum Social Mundial, que defende outra via de globalização, mas sabemos ser mais uma tentativa de desvio das possíveis mudanças e ações reais. Desvios tentados pela esquerda brasileira, como aconteceu no 2º Encontro Zapatista em Belém do Pará. E se temos mais e novas tecnologias, elas são mais utilizadas pelo poder, para manter os que estão em cima e os que estão abaixo, sem mudar as estruturas. Assim vemos a necessidade de lutar contra os autoritarismos com novas percepções e estratégias.

O movimento libertário, que é a única alternativa real, está infectado de autoritarismo, neuroses e contradições. A mudança pode começar quando e como quisermos, mas somente SE quisermos. A proposta da SOMA – IÊ, na terapia ou na pedagogia, oferece uma proposta concreta. Mudar o mundo começa na mudança do homem, mas não em aspectos internos espirituais, mas no cotidiano, nas relações interpessoais e sociais. O primeiro assassinato, e o maior de todos, é o cometido contra o próprio corpo, deixando de lutar e de SER: Deixando de amar em liberdade e produzir criativamente, ou seja, trocar sua liberdade por garantias mínimas de sobrevivência e consumo numa sociedade programada para poucos consumirem.

  Em março de 2002, iniciaremos grupos terapêuticos de SOMA – IÊ em São Paulo, Belo Horizonte e Curitiba. Temos contatos em outras cidades como Recife e estamos abertos a outras propostas. Ainda este ano, estaremos inaugurando a Biblioteca do Espaço Cultural TESÃO, em SP.

Vamos retomar o crescimento da anarquia, aproveitando mais as estratégias da capoeira angola. Acredito podermos viver o anarquismo das experiências da Espanha de 36/39, da Colônia Cecília, de Mackno na Ucrânia, mas principalmente as que iremos criar, depende de cada um...

Contra autoritarismo e terrorismo somente VIDA.

Amor livre e trabalho criativo.

Viver sem isso é cometer diariamente pequenos assassinatos internos que fazem aceitar e colaborar com os assassinatos externos.

 

Rui Takeguma, somaterapeuta

Nova Lima/MG - Janeiro de 2002

somaterapia@uol.com.br                                                                                 Http://soma.pagina.de

Observação *1

Dia 14 de março de 2002 o Brancaleone lançou um novo site, neste consta que Freire não está no Brancaleone, mas faz supervisão ao trabalho do Brancaleone.

Em 2000, Roberto Freire se afastou da SOMA e deixou 4 terapeutas formados, eu e os três do Brancaleone. Serão as 'pesquisas' publicadas e a prática nos grupos terapêuticos e suas outras produções de apoio que definirão novas formas de desenvolvimento da SOMA. Assim o tempo mostrará mais que textos de divulgação na internet. 

Observação *2

            Minha forma de produzir o que aprendi com Freire está em gestação e será publicada ainda este ano. Mas é minha forma de viver a capoeira angola e o anarquismo que estão produzindo evoluções na técnica da "Soma, uma terapia anarquista". Roberto Freire escreveu dois livros sobre a SOMA, e ainda pratico o que ali se encontra. Mas o livro de João da Mata possui aspectos que discordo na área da Capoeira Angola. Como essas diferenças da capoeira se encontram e mudam a técnica terapêutica, são sutilezas que nem eu nem o Brancaleone e nem o Roberto Freire podem ainda dizer.

            Espero após a publicação de minhas pesquisas que possamos todos nos encontrar e discutir quais caminhos são realmente mais produtivos. Mas considero todos os caminhos que estamos desenvolvendo, formas de melhor atacar os malefícios produzidos pela sociedade neoliberal que estamos inseridos, independente de técnicas, o objetivo é o mesmo, LIBERDADE.

A SOMA ou SOMA-IÊ são somente técnicas terapêuticas e pedagógicas, que desejam e lutam pelo anarquismo. Quanto mais técnicas diferentes existirem para a real libertação humana, mais cada um se beneficiará. As técnicas gestálticas, antipsiquiátricas e bioenergéticas são fundamentais para a psicologia moderna, nossa crítica é o afastamento político de seus profissionais atualmente. Assim enquanto nós terapeuta e assistentes da SOMA-IÊ e o Brancaleone e Roberto Freire da SOMA estivermos lutando pelo anarquismo, continuaremos irmãos...

Rui Takeguma  - 17/03/2002 - SP

Observação *3

Em função da relação que estabeleceu-se este ano, não mais posso recomendar o trabalho do Brancaleone. Procurei, desde que saí do coletivo que ajudei a criar, manter uma relação de trocas. Sempre que procurado por pessoas interessadas na Soma nas cidades onde não trabalho, recomendei os Somaterapeutas do Brancaleone. Devido a visão deles de que só eles praticam a "originalidade" da SOMA, nem informando a existência do meu trabalho, começo a me distanciar não só da convivência e ciência, mas também da ética por eles praticada.

Continuarei INFORMANDO a existência da Soma do Brancaleone. Mas não mais recomendo sua prática.

Usando a linguagem do escritor ARIANO SUASSUNA, enquanto o Brancaleone representa o BRASIL OFICIAL, me orgulho da SOMA-IÊ ser do BRASIL REAL.

Se for usar a linguagem do psicodrama de Moreno, prefiro manter a ESPONTANEIDADE com a SOMA-IÊ que ir pra RESERVA CULTURAL do Brancaleone.

O Anarquismo é o que nos une, e cada pessoa é uma anarquismo diferente. Escolha o seu anarquismo...

Rui Takeguma - 21/05/2002 - SP

Observação *4:

A Observação *3 gerou fofocas, e que somadas a problemas pessoais, levaram ao fim da minha relação pessoal com Roberto Freire. Num momento que inicio um Gurpo de Formação em Soma-Iê, com assistentes de Curitiba e Belo Horizonte, explicito minhas diferenças com o João, Jorge e Vera do Brancaleone.

O estopim foi um e-mail recebido por mim dia 12 de Outubro, no dia das crianças, dia onde comemoro 12 dias da minha filha Cecília. Coincidentemente, em São Paulo acontecem dois Workshops, de Soma, na Vila Madalena e de SOMA-IÊ no Espaço Cultural TESÃO, nas perdizes.

Veja mais detalhes...

Pretendo ainda este ano lançar um Livro-CD-Rom, que irá dar mais detalhes e história da relação SOMA x SOMA-IÊ e sua pesquisa com a capoeira angola.

Rui Takeguma - 16/10/2002 - SP


Veja o texto de 29/10/2002:

CARTA AOS NOVOS SOMATERAPEUTAS DA SOMA-IÊ - Parte I - Psicologia e Soma-Iê


www.soma.pagina.de

www.somaterapia.com - em breve

www.soma-ie.com.br - em breve